sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Silêncio Ensurdecedor

Estava eu debruçada no enferrujado ferro da ponte das inconstantes certezas, com um olhar triste e profundo para as águas, quando senti que estava sendo observada. Era um garoto mais alto do que eu, de pele negra, sorriso discreto, em meio a um olhar perdido. Não o vi de perto. Na verdade, ele estava bem distante de mim, mas aquela figura pareceu me incomodar, ou, como poucas pessoas conseguem, durante toda a vida, desarmava-me com sua presença.
Por um instante pensei, refleti no mais profundo do meu ser, se seria possível que eu, em sentimento de morte, pudesse sentir por ele, algo que fizesse meu coração voltar a bater.
E será que ele vivia a mesma agonia que eu? O que ele estaria pensando de mim? Será que ele pensava o mesmo que eu?
De repente, quando lancei meu olhar para ele, meus olhos pareceram perturbá-lo. O lugar isolado, composto apenas por nós dois, dava uma impressão delicada.
De certa forma, aquilo deixava minha alma com uma tremenda inquietação, mas não demonstrava o que sentia...Se é que sentia...Naquela hora eu já nem fazia ideia do que sentir, pois estava totalmente desestruturada.
Ele parecia temer a minha presença, mas, por alguma razão, me olhava sem nem ao menos disfarçar. Às vezes ficava envergonhada com a situação, e voltava a olhar as águas que passavam por debaixo da ponte. Fazia isso em meio a suspiros, que pareciam fazê-lo admirar-se ainda mais. Assim, foi se aproximando, até que se parou ao meu lado. Dirigi-me a ele com um sorriso singelo, e ele sorriu de volta, demonstrando reciprocidade.
Por um instante entendi um pouco o que estava acontecendo, se é que era para entender alguma coisa. A maneira como ele me olhava, admirado com o balançar dos meus cabelos, transmitia-me paz, e ao mesmo tempo, fazia-me tremer de nervosismo.
Ele então olhou-me e disse, um tanto nervoso: "Olhe para mim, por favor?!"...Não entendi a importância que ele via nisso, mas atendi ao seu pedido, embora estivesse me sentindo perturbada com a situação.
Mesmo próximos, continuávamos inertes, sem trocas de comunicação, pois, mesmo quando ele buscou me tocar, por vergonha e medo, não aceitei que o fizesse. Sentindo o seu ressentimento, pela minha atitude, permaneci quieta.
Não sabia nada sobre ele, quer dizer, nada que não transparecesse pelo seu olhar, o qual muito me fascinou. Para mim, por algum motivo que não tinha conhecimento, o silêncio e o seu olhar, me diziam mais do que mil palavras.
Senti uma angústia sem igual, pois ele representava querer atravessar a ponte, mas não ia...E algo me dizia que era por minha causa...Eu atrapalhava seu destino? Além de confundir-me eu também o confundia? Havia eu o prendido a atenção, tirando o foco de suas decisões? O meu silêncio, em meio às minhas perguntas, era ensurdecedor.
Enquanto pensava naquelas perguntas, ele despediu-se de mim, com um último olhar. Fazendo isso, lentamente foi se distanciando de mim.
Cheia de dúvidas, segui seus passos, ainda mais lentamente. Puxei-o pelo ombro e ele, seguindo o meu olhar, abraçou-me com força...Forte ao ponto de sentirmos, um o som do coração do outro...
Em meio ao silêncio que sempre nos envolveu, ele beijou-me lentamente...De um jeito carinhoso e intenso, como ninguém me beijara antes. Então, naquele "clima" de profundo sentimento, disse-lhe: "Não deixarei que atravesses por esta ponte, sem que me leves consigo, para todo o sempre..."
E assim, atravessamos a ponte das inconstantes certezas...

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